Datacenter sob demanda muda o padrão da infraestrutura

Arianna Delviero
Arianna Delviero
5 Min de leitura
Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira

Construir um datacenter próprio sempre foi um investimento pesado e lento: terreno, energia garantida, licenciamento e um projeto de engenharia que leva anos até a primeira máquina entrar em operação. O modelo funcionava bem quando a demanda por capacidade computacional crescia de forma previsível, algo que deixou de ser regra desde que cargas de inteligência artificial passaram a dominar boa parte do planejamento de infraestrutura das empresas.

Diante desse descompasso entre demanda e capacidade instalada, um modelo diferente ganhou força no mercado de tecnologia. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, especialista em tecnologia, software e inteligência artificial, considera que a possibilidade de contratar capacidade de datacenter sob demanda está mudando menos a tecnologia usada dentro das instalações e mais a forma como as empresas decidem investir em infraestrutura.

Por que construir um datacenter próprio deixou de ser o padrão?

Poucas empresas fora do setor de tecnologia têm escala ou apetite financeiro para sustentar um datacenter inteiro só para atender picos de demanda que podem nunca se repetir com a mesma intensidade. O investimento fica parado boa parte do tempo, gerando custo fixo alto sem uso proporcional, enquanto o mesmo capital poderia financiar diretamente o negócio principal da companhia em vez de ficar preso em servidores ociosos.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira indica que essa conta ficou ainda mais desfavorável com o crescimento acelerado da demanda por capacidade ligada à inteligência artificial, que exige atualizações de hardware em ciclos muito mais curtos do que os datacenters tradicionais foram projetados para acompanhar, tornando parte do investimento obsoleta antes mesmo de se pagar.

Como funciona o modelo de capacidade sob demanda?

Em vez de comprar e operar a infraestrutura física, a empresa contrata capacidade computacional de um provedor especializado, pagando pelo que consome em cada período, de forma parecida com o modelo já consolidado de nuvem pública para outros tipos de serviço. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira mostra que essa lógica de consumo pode incluir desde processamento genérico até clusters de GPU dedicados para cargas específicas de inteligência artificial.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira
Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira

O arranjo permite ajustar a capacidade contratada conforme o projeto avança, sem o compromisso de longo prazo que uma construção própria exigiria. Uma equipe pode escalar o uso durante o treinamento de um modelo e reduzir o consumo assim que essa etapa termina, algo impossível de replicar com a mesma agilidade em uma instalação física própria.

O que muda no planejamento de infraestrutura quando a capacidade é elástica?

O orçamento de tecnologia deixa de depender de uma grande decisão de investimento tomada anos antes da necessidade real aparecer no dia a dia da operação. Em vez de projetar a demanda máxima esperada para os próximos cinco anos e construir para esse pico, a equipe de infraestrutura passa a revisar a capacidade contratada em ciclos muito mais curtos, ajustando gastos conforme o comportamento real da operação.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira explica que essa mudança desloca parte da responsabilidade técnica para a área de planejamento financeiro, já que decisões que antes eram puramente de engenharia agora envolvem também negociar contratos de capacidade com fornecedores especializados nesse tipo de infraestrutura, algo raro nas equipes técnicas até pouco tempo atrás.

Os limites desse modelo e o que ainda exige planejamento de longo prazo

A elasticidade tem um preço: capacidade contratada sob demanda costuma custar mais por unidade do que a mesma capacidade construída e operada internamente em grande escala, o que torna o modelo mais vantajoso para cargas variáveis do que para operações contínuas e previsíveis ao longo de vários anos seguidos.

Setores com requisitos rígidos de soberania de dados ou latência extremamente baixa ainda encontram limites nesse modelo, o que mantém a construção própria relevante para uma parte específica da infraestrutura corporativa, mesmo em um cenário cada vez mais dominado pela lógica de consumo sob demanda que se consolidou nos últimos anos entre empresas de diferentes portes e setores da economia.

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